O FINGIMENTO DE CASO COM A APARÊNCIA: LENDO “O CASO DE F. A.”, DE RUBEM FONSECA
Ficamos em silêncio, olhando as calçadas cheias, do outro lado da rua, as luzes dos cinemas. Eu pensava “puta merda, eu gosto pra caralho desta cidade”.
Rubem FONSECA, 1994, p. 292.
Em pleno vôo
A primeira frase do conto “O caso de F. A.”, de Rubem Fonseca, ou seja, “A cidade não é aquilo que se vê do Pão de Açúcar” (FONSECA, 1994, p. 270), é dita pelo personagem Mandrake, diante do seu cliente, um empresário rico, casado e sentimental que pretende promover e financiar a fuga de uma garota que se encontra numa casa de prostituição. Vamos, aqui, imaginar o contexto criado pelo autor para que o seu personagem-narrador dissesse aquela frase: Mandrake olhava a cidade de um belo e alto apartamento que F. A. usava para os seus encontros extraconjugais. O empresário acabara de lhe narrar a situação da garota que ele acreditava ser a refém de uma cafetina francesa. F. A. estava terrivelmente apaixonado pela “doçura”, pela “inocência” e pelo “temor” da “vítima”. Depois de ouvir a proposta de trabalho, Mandrake olha pela janela e faz um comentário que parece desconectado do assunto que tratavam, fala sobre o que a cidade não é.
As palavras evasivas, as atitudes dispersas ou displicentes do narrador não só não têm absolutamente nada de evasivas... como, também, se tomadas com a devida atenção, podem revelar-se observações contundentes, procedimentos argutos, úteis, e mais programados do que querem parecer. Aliás, uma questão central no conto, e bastante presente na obra de Fonseca, é a aparência. O que põe aquele advogado-detetive em vantagem no meio urbano é a sua capacidade de antever que as pessoas, as situações, os lugares em geral parecem diferentes do que são. Ele próprio está sempre ocupado em fingir, em emitir sinais que façam com que o julguem como lhe é conveniente ser julgado ou como lhe apraz, tirando proveito das imagens diversificadas que é capaz de produzir e das que é capaz de, nos outros, desmascarar.
Poderíamos dizer do personagem Mandrake, aquilo que Walter Benjamim, filósofo que orienta muitas das reflexões que aqui são tecidas, disse do flâneur:
Sua indolência é apenas aparente. Nela se esconde a vigilância de um observador que não perde de vista o malfeitor. Assim, o detetive vê abrirem-se à sua auto-estima vastos domínios. Desenvolve formas de reagir convenientes ao ritmo da cidade grande. Capta as coisas em pleno vôo. (BENJAMIN, 1991, p.38, grifo nosso)
No entanto, o malfeitor de que fala Benjamin nada tem em comum com o “malfeitor” com o qual Mandrake se depara. Entre um e outro os laços de parentesco se diluíram de tal maneira que não será difícil perceber que o mal, como já figurou nos romances policiais, não encontra mais o seu espaço reservado nas páginas fonsequianas. Por estar em toda parte, o mal confundiu-se de tal modo com inúmeras outras coisas que não há mais mocinhos ou bandidos, apenas sobreviventes. A selvageria do asfalto dissipou limites maniqueístas e instaurou a cadeia infinda de presas e predadores, predadores que, a qualquer momento, são transformados em presas para predadores maiores, e assim por diante.
A face predadora da prostituta, junto com seus nomes diversos, emerge à medida que Mandraque vai descobrindo as camadas de máscaras de Míriam-Elisabeth-Laura. A mulher, inicialmente tomada por uma vítima da cafetina Gisele, intencionava taboquear F. A., a sua “presa”, para arrancar-lhe mais dinheiro, fingindo ser uma moça do interior que caiu nas garras da francesa, dona do bordel. A trapaça, no entanto, era um bocado dúbia. O cliente, F. A., por sua vez, como consumidor feroz, estava ali exercendo o seu poder de animal capitalista mais forte, o seu poder de comprar o outro que, mais fraco, figura como mero produto.
As camadas de aparência
O que há de contundente, afiado, naquele comentário feito do alto do apartamento de F. A.: Mandrake não está falando sobre o que a cidade é, já que defini-la seria uma impossibilidade – a simples tentativa, um erro tão grande quanto tentar reconhecer o lugar do bem ou do mal. No entanto, é importante saber que a cidade apresenta sobreposições de aparências. Confiar nas aparências urbanas seria como confiar na inocência da prostituta. A desconfiança infinita de Mandrake é que o torna tão apto a embrenhar-se nas situações complicadas em que se metem seus clientes e desembaraçar-se como poucos fariam.
A bela paisagem que o turista comum pode ver do Pão de Açúcar não é a cidade. Uma das coisas que a cidade pode ser é estar negociando o resgate de uma “vítima” que não é uma vítima, tanto quanto a cidade não é a paisagem dos postais. Na cidade, o olhar assume uma incrível variedade de funções, tipos, ângulos. O turista olha o Rio de Janeiro de fora e de cima, Mandrake o vê de dentro e mira para todos os lados, sendo parte daquilo que vê. Seu olhar pode atravessar as camadas de aparências, levando o leitor, que acompanha a sua história, a desconfiar de que a cidade seja feita de camadas sem fim de superfícies.
No conto, as caras vão se revelando máscaras vazias, os nomes se multiplicam e revelam diversas identidades de sujeitos multifacetados. Como apontamos, a “vítima” estava, na verdade, envolvida com a suposta vilã para aplicar um golpe no empresário. F. A., por sua vez, não estava apaixonado pela inocência da moça, mas disposto a comprar uma mulher que dissimulasse tal inocência. A cidade, assim como seus habitantes, esconde-se, camufla-se e, a alguns, revela-se. Durante a narrativa, como a sua primeira frase anuncia, Mandrake é o sujeito que vai reconhecer as superfícies urbanas como superfícies. Sob uma aparência mais singela – a paisagem, uma pobre moça do interior, um senhor apaixonado –, encontrará as coisas mais sórdidas – os apartamentos transformados em bordel, a prostituta golpista, o comprador voraz.
Mandrake, para atravessar as camadas de aparência, dissimula, torna-se também aparência.
O ex-indivíduo
Num ambiente onde parecer adequadamente é fundamental para a sobrevivência, é essencial, como vemos, ser capaz de perceber as camuflagens, desmascarando as dos outros e preservando as próprias máscaras. O olhar, como já apontara Walter Benjamin, é o sentido privilegiado para tal tarefa. “É evidente que o olho do habitante das grandes metrópoles está sobrecarregado com funções de segurança” (BENJAMIN, 1991, p. 142). No entanto, é necessário que este olhar de avaliador em vigília não se atenha à descrição do tipo humano que se lhe apresenta, mas que seja capaz de relacionar cada traço de sua descrição a uma causa que revele qual perigo ou vantagem o outro pode oferecer num dado momento e ambiente.
Benjamin fala, ainda, sobre a incapacidade das fisiologias, que são os “livros de bolso que tratavam de descrever inicialmente tipos humanos, [e] tinham a função de afastar a inquietante sensação que surgia entre aqueles que viviam na cidade.” (BENJAMIN, 1991, p. 36). A insuficiência das fisiologias, no que diz respeito à uma literatura inerentemente urbana, deve-se à sua tendência à mera descrição dos indivíduos, num meio onde a individualidade torna-se impossível.
A decadência das fisiologias, condenadas pela incapacidade de realizarem a sua função, abre espaço para o avanço de uma literatura que se atém ‘aos aspectos inquietantes e ameaçadores da vida urbana’ (BENJAMIN, 1991, p. 38).
Um dos aspectos mais ameaçadores e inquietantes da vida urbana é a constatação de que cada sujeito pode revelar-se um tipo diferente de acordo com a situação com que se confronta. O outro torna-se, assim, uma promessa e um enigma, constante fonte de medo e de esperança.
A tentativa de apaziguar os nervos do cidadão em choque com a vida urbana é a função que as fisiologias são incapazes de realizar, por tentarem criar a impressão de que é possível conhecer o outro levando em conta aquilo que se apresenta nele, em dado momento, tomando-o como um ser inalterável, desconsiderando que as características que o sujeito apresenta podem ser produzidas com a intenção de que se faça delas um determinado julgamento, para dele tirar um proveito.
O romance policial escapa do que condenou as fisiologias ao fracasso. O indivíduo – como unidade humana indivisível – não figura em suas páginas, como não se encontra nas ruas. “O conteúdo social primitivo do romance policial é a supressão dos vestígios do indivíduo na multidão da cidade grande” (BENJAMIN, 1991, p. 41). Em seus contos, Rubem Fonseca, na trilha do romance policial, não perde de vista os tipos múltiplos que cada personagem, como ser urbano, deve desempenhar.
Além de descrever as características que cada um evidencia, é preciso relacioná-las às suas causas, e estas aos perigos e vantagens ofertados. É bom avaliar, ainda, as probabilidades das características serem fingidas, levando em consideração que benefícios podem levar a quem as possui. Assim, uma garota de programa que diz estar sendo mantida como refém, pode querer, de fato, conseguir um preço mais elevado pelo seu corpo.
A prostituta, há muito tempo, é uma mercadoria fácil, logo, desvalorizada. A cotação da garota se eleva caso ela consiga convencer o seu comprador de que não é uma prostituta. O narrador de “Passeio Noturno - Parte II”: “Uma puta inteligente prepararia todos os bilhetinhos em casa, para enganar seus fregueses” (FONSECA, 1994, p.400, grifo nosso). Os bilhetinhos a que ele se refere devem ser escritos como se fossem feitos às pressas, para que o cliente, “laçado” no trânsito pela prostituta, pense que ela não é uma prostituta, mas uma mulher arrojada que sentiu por ele uma forte atração.
O cliente, por sua vez, ao desempenhar o papel de presa, pode estar interessadíssimo em devorar a sua aparente predadora e, para isso, assume uma postura fingidamente ingênua, por compactuar com o blefe que se instaura. Esse, acreditamos, é o caso de F. A., que de maneira nenhuma deixa de desejar consumir a performance Elisabeth da prostituta, quando lhe são revelados os detalhes mais indecorosos do jogo em andamento. Diálogo entre Mandrake e o empresário:
Nós conversamos pouco. mas foi o bastante. Ela é uma vigarista, estava atrás do teu dinheiro junto com Gisele e o veado.”
“Como? Como?”
“Ela mesma vai falar com você.”
Passei o telefone para Miriam-Elisabeth-Laura.
“É verdade ¾ me desculpe ¾ me desculpe ¾ como? ¾ foi isso mesmo ¾ estou, estou arrependida ¾ você é muito bom...”
Miriam-Elisabeth-Laura me deu o telefone de volta. “Ele quer falar com você.”
Coloquei o telefone no ouvido. F. A. falava baixo, com medo de ser ouvido.
“Eu amo essa mulher, entendeu, não me interessa o que ela é.”
“Ela estava te enganando...”
“Não tem a menor importância.”
“O dinheiro é seu.”
“É isso mesmo!” (FONSECA, 1994, p. 296)
Mandrake procura conhecer os limites entre as versões diversas das pessoas, porém, esse personagem de mil disfarces, demora para reconhecer a camuflagem de F. A. O detetive acredita nas aparências do seu cliente, e, o que não é comum, engana-se. O advogado não foi capaz de tomar, em relação a F. A., a mesma atitude que tomou em relação à garota de Gisele, cujos hábitos tão disparatados, ele tenta conciliar:
Eloína vira Miriam fumando, roendo unhas. F. A. vira a garota chupando dedo. Chupando como? Eu precisava conversar com F. A. para saber de que maneira a garota chupava dedo. Ela podia estar usando unhas postiças e continuava com o hábito de levar os dedos à boca sem roer as unhas; porém podia ter deixado de fumar logo depois que Eloína a vira.” (FONSECA, 1994, p. 278, grifo nosso)
Mais uma vez é possível encontrar um ponto de contato entre o flâneur, como o pensava Benjamin, e o advogado-detetive:
Sobre a legenda do flâneur: ‘Com a ajuda de uma palavra que escuto ao passar, refaço toda uma conversa, toda uma vida; basta-me o tom de uma voz para ligar o nome de um pecado capital ao homem com quem acabo de cruzar e cujo perfil entrevi.’ Victor Fornel”. (BENJAMIM, 1991, p. 204, grifo nosso)
Nesse caso, Mandrake sequer teve a oportunidade de entrever o perfil da garota a ser por ele “resgatada”. Mas, para um narrador capaz de imaginar, além de unhas, tantas outras coisas-postiças sobre as pessoas, não ver a prostituta antes de executar o plano de resgate/seqüestro não causou grandes problemas.
Se, na cidade de Walter Benjamim, o olhar é o sentido privilegiado para a segurança, na cidade fonsequiana, imaginar é igualmente importante. Quando entrever não é mais possível ou suficiente, antever é a única saída. Aliás, não bem uma saída, mas um visto de permanência, já que não há como evadir da cidade e das situações que ela cria. Pode-se, sim, permanecer nela, diluindo-se, como indivíduo, no caldo de interesses e poder de que é feito o meio urbano, sem esquecer de abrir os olhos neste mergulho para mirar tudo o que atravessa a cidade, inclusive atrevendo-se, quando viável, a olhar para si mesmo.
Referências Bibliográficas:
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas III. Trad. : José Martins Barbosa, Hemerson Alves Baptista. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
FONSECA, Rubem. Contos Reunidos. Organização Boris Schnaiderman. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.